Caixas de música desafiam telemóveis

#algarve2020 || EM DESTAQUE || JANEIRO 2022

São pesadas e bem maiores do que um leitor de MP3, mas, apesar de não caberem no bolso, fazem aquilo que nenhum dispositivo portátil consegue fazer: resgatar o prazer de ouvir música com qualidade. Na era da música digital, uma empresa algarvia conquistou a Europa e os Estados Unidos com uma nova geração de aparelhagens de alta-fidelidade e dá agora o salto para levar estas caixas de música ao resto do mundo.

Debruçado sobre o miolo do leitor de música topo de gama, Nuno Vitorino aponta para a linearidade dos circuitos postos a descoberto para pôr em evidência o que faz destas caixas algarvias as mais fiéis amigas do sinal acústico. “Toda a cadeia de áudio, que vai desde o servidor de música até às colunas, qualquer desvio que incorra pelo meio, sejam interferências, ruído nos sinais, os relógios que não estão bem sincronizados… tudo vai ter impacto no som final e influencia a naturalidade daquilo que nós, humanos, entendemos como um instrumento que está a tocar à nossa frente”.

São autênticas “máquinas de alta precisão” os leitores de música que vão ganhando forma na linha de montagem. Cinco pares de mãos, cada um no seu posto, solda cada componente da fonte de alimentação, “um dos pontos fundamentais para anular o ruído da fonte elétrica e para não produzir novo ruído, nem vibração”, explica o engenheiro informático, um dos pais dos sistemas de alta-fidelidade que a Innuos fabrica no Algarve desde 2016.

Máquinas de alta precisão

Em breve, este trabalho de minúcia há de contar com a ajuda de uma máquina de soldadura seletiva que virá acelerar esta etapa de produção e garantir ainda mais qualidade aos equipamentos de gama alta. Faz parte do acelerado processo de modernização em curso na linha de montagem, agora que a unidade fabril se mudou do Ninho de Empresas de Loulé para um espaço 3 vezes maior na Zona Industrial do Vale da Venda, em Faro, para dar resposta à procura internacional.

“Nós precisávamos de reforçar a capacidade de produção e agilizar a operação para podermos acompanhar a expansão prevista”. Quem o diz é Amélia Santos, o outro progenitor das caixas de música que ganham adeptos entre audiófilos de todo o mundo. A braços com obras e a continuidade da linha de fabrico, conta os dias para ver concluído o projeto de inovação produtiva: “agora, somos capazes de expedir em média 40 máquinas por dia, mas, quando tudo estiver terminado, no final do primeiro trimestre de 2022, estaremos em condições de expedir 100 e ainda teremos margem para alargar a gama de produtos”, antevê.

Produzir mais e melhor

Além do ambiente controlado de produção – com proteção electroestática e condicionamento de humidade e temperatura – o novo espaço já terá uma sala de preparação dos milhões de componentes desenhados especificamente para a Innuos e que chegam diariamente de mais de 100 fornecedores de todo o mundo. Sairão daqui seriados até à linha de montagem por tapete rolante. Ao lado, ultimam-se os detalhes de uma sala de som, para testes a novos produtos e demonstração, mas mais adiante passam a contar também com uma zona de testes finais de produto e uma unidade de reparações e alfândega.

O investimento, próximo dos 700 mil euros, era uma urgência para a Innuos. A subvenção de 186 mil euros do CRESC Algarve 2020, tal como apoios anteriores à internacionalização, “foi um acelerador”, faz notar. A empresa, que opera hoje em 41 mercados, com destaque para os Estados Unidos e para a Inglaterra, quer apontar agora baterias à Ásia, nomeadamente “a China, a Coreia do Sul e o Japão, que sabemos serem grandes mercados de audiófilos”. As novas valências vão, por exemplo, dotar a empresa da capacidade de “poder obter as certificações específicas” para esses novos horizontes.

Uma engenhoca que nasceu em casa

A carreira industrial começou quase por acidente na vida de Nuno Vitorino e de Amélia Santos, quando viviam no Reino Unido. Ambos engenheiros informáticos com carreira internacional, engendraram uma instalação caseira para digitalizar com qualidade a coleção pessoal de CD. “Os amigos que iam lá a casa ficavam muito curiosos e, por brincadeira, acabámos por colocar aquilo no eBay, onde, em 6 meses, vendemos 200 unidades. Apercebemo-nos que tínhamos criado algo com potencial de mercado”, recorda Amélia.

Longe vão os tempos do protótipo digitalizador de música, da mudança para Portugal em 2009 e até dos primeiros ensaios de produto em Tavira, em 2013, quando lançaram a empresa. Nos 5 anos de vida da marca internacional, não só já contam com toda uma gama de aparelhos (quatro, que custam entre mil e 15 mil euros), como cada um é já muito mais do que um digitalizador de música: é servidor, gestor de biblioteca e leitor de alta-fidelidade.

Para isso, muito contribuiu a equipa de desenvolvimento de software que a empresa dispõe no Pólo Tecnológico de Lisboa e que hoje conta com 10 programadores. O sistema operativo concebido, o innuOS, é uma espécie de estação central que agrega todas as fontes de música (serviços de streaming, rádios online, ficheiros de música ou até os velhinhos CD), organiza-as e tira delas o melhor proveito possível. “Só para ter uma ideia da sensibilidade do que estamos a falar, até o percurso do sinal pela motherboard pode influenciar a qualidade de som, pois pode dar a volta por muitos componentes ou ir direto ao CPU e à saída para os conversores analógicos. Por isso, o nosso software controla desde as Bios das motherboards à aplicação de interface”, explica Nuno Vitorino.

O reconhecimento dos gigantes

Os resultados começaram a aparecer cedo. Primeiro, prémios, depois recomendações. Amélia recorda que, “pouco meses depois de lançarem a marca, em 2016, a KEF, um gigante mundial de colunas e auscultadores de alta-fidelidade, apresentou em Londres uma das suas novidades ligada a um leitor da Innuos e isto mostrou ao mercado que, com a nossa fonte, a qualidade do som seria muito melhor”.

Não admira, portanto, que existam hoje já “dezenas de milhares de equipamentos” fabricados no Algarve a fazerem as delícias de audiófilos de todo o mundo. “99% do que vendemos é para exportação e cerca de 70% para fora da União Europeia”, conta, fazendo notar que o volume de negócios tem crescido 2 a 3 dígitos por ano.

Na frente do regresso à alta-fidelidade

Os horizontes são, por isso, animadores. A equipa já junta 40 trabalhadores qualificados e a perspetiva é continuar a recrutar. Amélia Santos acredita que, “com este investimento, é possível triplicar as vendas em ano de cruzeiro, dentro de 4 anos”. Além da entrada na Ásia, querem “alargar a gama de produtos de alta-fidelidade e começar a olhar para outras indústrias”, como instalações profissionais – hotéis, por exemplo –, os automóveis e os estúdios de gravação “que ainda usam computadores e que podem beneficiar muito das vantagens de equipamentos desenhados para registar o melhor som possível”. O produtor dos Iron Maiden é um dos que já testa as soluções da Innuos.

O casal de empresários tem noção de que a nova geração de aparelhagens de alta-fidelidade que desenham “nunca será um produto de massas”, mas faz notar que o nicho de quem gosta de ouvir música está avaliado em 17 mil milhões de pessoas em todo o mundo. “Nem todas saberão que não estão a ouvir com qualidade pela simples razão de que nunca experimentaram melhor”. É então que Nuno Vitorino liga o “Statement”, o leitor topo de gama da Innuos, para transportar o ouvinte até à praça onde repicam os sinos da igreja, voam pássaros e abelhas, até que a tristeza de um piano abre as portas à amargura da voz de David Gilmour. “High Hopes”, de Pink Floyd. “É impossível não percebermos a diferença! E, uma vez ouvida, nunca mais nos esquecemos”.

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